Citação de citação (apud): o que mudou com a NBR 10520:2023
Você está lendo um livro do Streck e encontra uma frase excelente do Paulo Freire, citada ali dentro. Você não tem o livro do Freire em mãos. Pode usar a frase? Sim — mas tem uma forma certa de fazer isso, e ela mudou em 2023.
Este é o apud, ou citação de citação. É uma das partes da ABNT que mais gera dúvida e onde mais se copia regra velha da internet.
O formato correto
A NBR 10520:2023 mantém o apud e define a ordem assim: autor original, ano, página do original, apud, autor da obra que você leu, ano, página.
Segundo Freire (1994, p. 13 apud Streck; Redin; Zitkoski, 2017, p. 25), …
Ou, com tudo entre parênteses:
"…trecho citado…" (Freire, 1994, p. 13 apud Streck; Redin; Zitkoski, 2017, p. 25).
A lógica é sempre a mesma e vale a pena guardá-la: primeiro quem disse, depois onde você leu. O apud significa "junto a", "citado por" — tudo o que vem depois dele é a obra que esteve efetivamente nas suas mãos.
O que mudou em 2023 (e quase ninguém atualizou)
A NBR 10520 foi revista em julho de 2023 e substituiu a versão de 2002. Três mudanças afetam diretamente o apud:
1. Acabou a CAIXA ALTA dentro da citação
Esta é a maior, e a maioria dos guias online ainda ensina errado.
❌ Antigo: (FREIRE, 1994 apud STRECK; REDIN; ZITKOSKI, 2017) ✅ Atual: (Freire, 1994 apud Streck; Redin; Zitkoski, 2017)
Dentro do texto, o sobrenome vai em letras maiúsculas e minúsculas — só a inicial maiúscula, como qualquer nome próprio.
Cuidado com a confusão mais comum: isto vale para a citação no texto. Na lista de referências no fim do trabalho, que segue outra norma (a NBR 6023), o sobrenome continua em maiúsculas:
STRECK, Danilo R.; REDIN, Euclides; ZITKOSKI, Jaime José.As duas coisas convivem no mesmo trabalho e estão as duas certas.
2. O et al. entra a partir de quatro autores
Se a obra tem quatro ou mais autores, cita-se o primeiro seguido de et al.:
(Silva et al., 2021)
Na lista de referências, porém, todos os autores devem aparecer. Muita gente corta na lista também — e não é isso que a norma pede.
3. O recuo de 4 cm passou a recomendação
Para citações diretas com mais de três linhas, a norma recomenda o recuo de 4 cm; deixou de o impor como obrigação absoluta. Na prática, o regulamento do seu curso costuma ser mais exigente do que a norma — siga-o.
O que vai (e o que não vai) para a lista de referências
Esta é a pergunta que mais aparece, e a resposta é curta:
Vai para a lista a obra que você leu. No exemplo acima, entra o Streck; Redin; Zitkoski (2017). O Freire (1994) não entra, porque você não o consultou.
STRECK, Danilo R.; REDIN, Euclides; ZITKOSKI, Jaime José. Dicionário Paulo Freire. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.
Faz sentido: a lista de referências é a lista do que passou pelas suas mãos. Colocar lá o Freire seria afirmar que leu o original — o que não é verdade, e é exatamente o que o apud serve para declarar com honestidade.
Alguns regulamentos de curso pedem que a obra original também apareça, em nota de rodapé. Verifique o seu antes de entregar.
Quando você não deve usar apud
O apud é uma ferramenta legítima, mas é um recurso de último caso. Use-o quando:
- a obra original está esgotada, é inacessível ou está numa língua que você não lê;
- é um documento histórico ou raro;
- a fonte original é genuinamente impossível de obter no seu prazo.
Não use quando o original está a um clique de distância. E é aqui que está o risco real: se a citação passou por um intermediário, você está confiando que ele copiou certo — o autor, o ano, a página e o sentido. Erros de transcrição propagam-se assim de trabalho em trabalho, às vezes durante décadas.
Sempre que conseguir o original, vá ao original. Além de mais seguro, permite-lhe ler o contexto — e citações fora de contexto são um problema de conteúdo, não de formatação.
Um erro que o apud não resolve
Vale a pena dizer isto com todas as letras: o apud declara que você leu num intermediário, mas não valida que a citação existe. Se a fonte intermediária inventou ou distorceu a citação, o apud transporta o erro com uma aparência de rigor.
Isto ficou mais sério com o uso de assistentes de IA, que produzem referências plausíveis e inexistentes com facilidade. Se recebeu uma citação de uma ferramenta automática, confirme-a na fonte real antes de a usar — pelo DOI, pelo ISBN ou pelo catálogo da biblioteca.
Resumo rápido
| Situação | Como fica |
|---|---|
| Formato no texto | (Original, ano, p. X apud Consultada, ano, p. Y) |
| Sobrenome no texto | Maiúscula e minúsculas: Freire |
| Sobrenome na lista de referências | Maiúsculas: FREIRE |
et al. no texto | A partir de 4 autores |
| Autores na lista de referências | Todos |
| O que entra na lista | Só a obra que você leu |
| Recuo em citação longa | 4 cm, recomendado |
Automatizar a parte chata
Guardar quem disse, onde você leu, o ano e a página de cada uma — e depois formatar tudo de forma consistente até à última página — é precisamente o tipo de tarefa que não devia ocupar a sua cabeça na véspera da entrega.
O EZScite guarda os dados de cada obra uma vez, busca os metadados corretos direto da fonte (por DOI, ISBN ou URL, para você não depender de transcrição manual) e aplica a norma escolhida — ABNT, APA, NP 405, Vancouver e outras — na citação e na lista de referências.
